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A barreira que não se foi: Texas quer retomar projeto de muro

A reeleição de Donald Trump pode ter sido derrotada, mas sua ambição de construir um muro na fronteira com o México continua de pé – e pode ser levada adiante pelo representante de Texas. 

O estado historicamente republicano, agora sob a gestão de Greg Abbott, quer levantar uma barreira na linha limítrofe, ao sul do país, para "ajudar a proteger a fronteira", conforme justificou o próprio Abbott, no começo de junho.

Sem divulgar nenhum detalhe sobre o projeto, como extensão, valor e estrutura, o governador texano já alocou 250 milhões de dólares para a construção do muro. Esse montante, segundo ele, seria apenas um "depósito", e deve ser usado, entre outras coisas, para contratar um gerente de projeto.

Embora nenhuma agência tenha feito uma estimativa para a iniciativa liderada por Abbott, o Departamento de Segurança Interna havia calculado que a muralha imaginada por Trump custaria 21,6 bilhões de dólares em um período de construção de 3,5 anos. 

Tal qual o ex-presidente estadunidense, que disse que o México pagaria pelo muro, Abbott também garante que não vai acionar verba pública, com o financiamento do projeto feito com capital privado por meio de doações.

"É vergonhoso que nosso governador esteja apelando para doações para bancar políticas estaduais sem sentido, isso deveria ser proibido", disse ao Brasil de Fato a ativista Dani Marrero Hi, diretora da La Unión del Pueblo Entero (Lupe), uma associação que luta pelo direito e bem-estar de imigrantes e pessoas em condição de vulnerabilidade social na região do Vale do Rio Grande, no Texas.  

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"A parte mais dolorosa é saber que outras necessidades urgentes merecem a atenção do governador, como a manutenção da nossa rede elétrica, o desemprego e a saúde. O que não quer dizer que não existam desafios na fronteira, na imigração", completa Marrero.  

Críticos ao projeto pontuam, porém, que o muro não seria a resposta para esses problemas, uma vez que muitos imigrantes indocumentados já estão no país e cartéis conseguem driblar a segurança facilmente.

"Isso tudo é uma jogada política, porque já foi provado que a construção desse muro não é uma solução. Precisamos nos referir a esse projeto pelo nome correto: propaganda eleitoreira", diz a ativista.

De fato, Abbott está focado desde já na sua campanha de reeleição de 2022 e não descarta a possibilidade de concorrer ainda à Casa Branca, em 2024.

Em suas redes sociais, o governador do Texas tem divulgado vídeos ao lado de Trump, em que o ex-presidente aprova suas investidas. Na sua página pessoal, Abbott se declara um "forte líder conservador" e se diz disposto a lutar para que o Texas continue sendo "o melhor lugar para formar uma família".

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A fala populista do republicano parece agradar aos moradores do estado. Segundo uma pesquisa conduzida pela Universidade do Texas e pelo jornal Texas Tribune, cerca de 46% dos entrevistados apoiam o governo de Abbott e sua missão de construir o muro, enquanto 37% se colocam contrários à prática.

Muito antes de ter declarado sua intenção de dar continuidade ao projeto de Trump, o governador já empenhava-se em políticas anti-migratórias.

Sob sua liderança, o Texas aprovou a lei SB4, que, entre outras coisas, permite que a polícia – incluindo a polícia de campi de faculdades – questione o status de imigração de qualquer pessoa que seja detida ou presa.

Isso inclui motoristas e passageiros parados no trânsito mesmo por motivos banais, como lanterna traseira quebrada ou excesso de velocidade. Até vítimas e testemunhas de crimes de diferentes naturezas são alvo desta regra. 

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"Criou-se um clima muito ruim. Até eu, como cidadã dos EUA, fico nervosa quando cruzo a fronteira. No final das contas, essa militarização da fronteira virou uma questão política, porque ninguém, de fato, se interessa em falar conosco sobre o que está acontecendo", desabafa Marrero. 

O Pew Research Center estimou que 10,7 milhões de imigrantes indocumentados viviam nos Estados Unidos em 2016, o nível mais baixo em uma década. No Texas eram 1,6 milhões de imigrantes não-autorizados, cerca de 5,7% da população local. 

Edição: Arturo Hartmann