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A mão nada invisível dos EUA deve se manter sobre Cuba com Biden

O que separa Estados Unidos e Cuba é justamente o que os mantêm conectados: a política do embargo. Desde o final dos anos 1950, uma série de barreiras econômicas, políticas e financeiras foi estabelecida pelos estadunidenses sob o pretexto de forçar o país caribenho a abraçar a democracia com preceitos econômicos privatistas. 

"Cuba sempre foi uma pedra no sapato dos Estados Unidos", confessa Fulton Armstrong, membro sênior do Centro de Estudos Latino-Americanos da Universidade de Syracuse, à reportagem do Brasil de Fato. "Fizemos tudo o que estava ao nosso alcance: embargo, isolamento diplomático, criamos indústrias e 'fantasmas', e nada disso funcionou".

De maneira independente, Cuba resiste, mas não sem dores, claro. A exclusão de tratados e comércio internacional cobra um alto preço da economia local, que sofre ainda mais em tempos pandêmicos. Para se ter uma ideia, em 2019, cerca de 4,2 milhões de turistas movimentaram mais de 4 bilhões de dólares na ilha, respondendo por 10% do PIB cubano.

Agrava a situação a herança maldita deixada por Donald Trump. Antes de entregar a Casa Branca ao democrata Joe Biden, o ex-presidente enrijeceu ainda mais a política contra o país comandado por Miguel Diaz-Canel. "As ações de Trump evidenciam que a briga é contra o povo, não contra o governo", vocifera Armstrong, "impedir que as pessoas mandem dinheiro para seus familiares na ilha não é uma medida diplomática, é um ataque às pessoas". 

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O republicano barrou ainda a viagem de pesquisadores, fechou a rota marítima para cruzeiros e ainda voltou a colocar Cuba na lista de países que fomentam o terrorismo. "O endurecimento do embargo sob Trump foi bastante significativo, e isso incluiu a importunação a qualquer banco ou empresa que faça negócios com Cuba, aumentando, é claro, os custos de qualquer negócio com o país”. E finaliza: "dói saber que Biden tenha preservado as políticas de seu antecessor". 

De fato, o novo presidente quebrou o silêncio em relação à onda de protestos em Cuba com uma frase simplista: "estamos ao lado do povo cubano". Mais uma vez, os Estados Unidos se mostram favoráveis a uma mudança radical de regime, em vez de abraçar a "mudança evolutiva", defendida pelo professor Armstrong.

"Nós temos esse fenômeno político, em que os EUA tentam interromper a história para barrar os processos evolutivos, porque muitas pessoas, incluindo, aparentemente, o governo Biden, acreditam que o melhor cenário é a mudança de regime com uma revolta popular que causa caos, violência e sofrimento. Cada vez mais promovemos isolamento em vez de envolvimento com Cuba", conclui.

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O cientista político da Universidade de Augusta, Paolo Spadoni, lembra, porém, que Biden, sozinho, não tem autonomia para suspender o embargo e promover mudanças profundas. "As pessoas às vezes se esquecem que o embargo não é algo que o presidente, a seu critério, possa simplesmente interromper. Desde 1996, o embargo foi codificado em lei. Portanto, todas as mudanças ali exigem envolvimento do Congresso", explicou ao Brasil de Fato.

Para além de questões de restrição institucionais, Spadoni aponta para um possível motivo político-eleitoral. "As relações com Cuba são uma pauta sensível para o estado da Flórida, que apoiou Donald Trump nas últimas eleições. Se Biden promovesse o fim das restrições, haveria implicações políticas internamente, e é preciso lembrar que teremos eleições no ano que vem", diz Spadoni. 

O pesquisador, um contumaz crítico à intervenção em Cuba ou a qualquer outro país, destaca que o embargo exacerba crises e desafios enfrentados pelos cubanos. Na visão de Spadoni, há reformas necessárias a serem feitas, algumas inclusive já indicadas pelo governo de Diaz-Canel, como maior “autonomia a cooperativas e empresas não-estatais". 

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E na opinião de Spadoni, se quisesse provar qualquer ponto ideológico, em vez de criar barreiras para “interromper a história”, como disse Armstrong acima, o pesquisador de Augusta acredita que o governo dos EUA deveria retirar barreiras e deixar que os próprios cubanos tomassem as decisões necessárias, sem qualquer tipo de restrição. 

 

Edição: Arturo Hartmann