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Argentina: alimento transgênico foi testado em crianças indígenas

Trinta crianças indígenas da etnia wichi foram utilizadas em um experimento para a fabricação de uma mistura de soja transgênica, açúcares e conservantes em forma de muffins (bolinhos cilíndricos). Selecionadas para o teste do chamado "Bloco Nutricional", as crianças do povoado Alto La Sierra possuíam diferentes níveis de desnutrição, de maneira que a equipe de cientistas pudesse avaliar os possíveis resultados após o consumo do produto em relação a um grupo de crianças com nutrição adequada.

Divulgado pelo próprio governo nortenho da província de Salta no dia 9 de agosto, no Dia Internacional dos Povos Indígenas, o alimento passou pela aprovação do Ministério da Agroindústria da Província de Buenos Aires para elaboração e comercialização.

Em um comunicado oficial, a subsecretária de Medicina Social, Gabriela Dorigato, afirmou que a prova foi realizada para testar a aceitabilidade do produto. "Primeiro eram uns biscoitos muito duros e, após uma entrevista com a empresa [produtora], pedimos que fossem mais esponjosos, com menor líquido para uma maior durabilidade. Explicamos a temperatura da área, e tudo isso foi melhorando o produto", apontou.

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Após os testes, o estudo conclui que "após um mês de consumo do alimento proteico, foram controlados os dados biométricos, tamanho e peso e os dados foram contundentes: as crianças que receberam o Bloco Nutricional em forma de madalenas subiram de peso e melhoraram os níveis de condição nutricional analisados pela equipe de saúde."

Infâncias wichi em laboratório sojeiro

Em tempos em que os alimentos ultraprocessados terminam sendo a única opção para tantas famílias em um mundo em crise agudizada pela pandemia da covid-19, o governo da província nortenha de Salta impulsiona o consumo de soja transgênica fumigada com agrotóxicos, uma nova fonte de lucros para a agroindústria.

Localizados em um território em disputa pela ascensão do agronegócio, os wichi são impactados pela expulsão, pela pobreza e a desnutrição nas infâncias. Segundo a Agência Tierra Viva, em Santa Victoria Este as estatísticas indicam uma taxa de mortalidade infantil de 17,19 por mil, e de menores de 5 anos chega a 31,94 por mil, sendo as infâncias indígenas as principais afetadas.

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Profissionais da saúde que atendem na região observaram, ao longo dos anos, casos crescentes de câncer e problemas de nascimento, como apontou María del Carmen Seveso, da Rede de Médicos de Povos Fumigados, em entrevista ao Brasil de Fato. Os problemas, aponta, são decorrentes da crescente fumigação de agrotóxicos consequente da expansão da soja nos territórios.

Um relatório divulgado pela ONG Naturaleza de Derechos ressalta que “nos 49  controles realizados pelo SENASA, entre 2017 e 2019, sobre resíduos de agrotóxicos nos cultivos de soja, foram detectados 5 princípios ativos (2.4-D, Glifosato, Pirimifos-metil, Malation, Ditiocabamatos). 60% das substâncias perigosas encontradas são possíveis ou prováveis agentes cancerígenos, 80% alteradores hormonais e 40% afetam o sistema nervoso”.

Especialistas e pesquisadores sobre alimentação e os povos indígenas no país denunciam que as organizações de saúde ligadas a esse setor da população, com um trabalho de campo direto com as populações locais, ou as próprias organizações da comunidade wichi, não foram consultados sobre os testes do Bloco Nutricional. Tampouco foram consultados órgãos de referência da saúde como a Sociedade Argentina de Pediatria ou o Colégio de Nutricionistas de Salta.

Os experimentos teriam sido, segundo as denúncias, resultado de acordo entre o Ministério da Agroindústria, a indústria sojeira e os engenheiros de alimentos Federico Petraglia e Sergio Ferrari, capitaneados por Antonio de los Río, ex-secretário de Serviços de Saúde do governador Gustavo Sáenz e integrante da Mesa Interministerial de Emergência Sanitária do norte da província.

Nesta semana, a denúncia ganhou repercussão e pelo menos 85 organizações sociais, sanitárias e ambientais assinaram uma carta exigindo ao governo de Buenos Aires, de Salta e nacional cancelem o projeto do Bloco Nutricional.

"A soja transgênica utilizada para este produto tem uma carga de resíduos de agrotóxicos que não foi testada e tornará o consumo de suplemento nutricional em um micro envenenamento”, afirma o documento.

*Com informações de Sudestada, Página 12 e Pelota de Trapo

Edição: Thales Schmidt