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Argentina: pessoas trans apontam conquistas, mas discriminação ainda é predominante

Hoje, 31 de março, é o Dia Internacional da Visibilidade Trans, uma data que chama atenção para as discriminações geradas pela sociedade sobre as identidades de gênero. Comemorada desde 2014, a data também celebra as existências trans, uma vez que, até então, a data mundial referente à comunidade trans era o 20 de novembro, em memória às pessoas vítimas de transfobia.

A expectativa de vida da população trans é de 35 anos, tanto no Brasil – país que mais mata pessoas trans no mundo – quanto na Argentina, de acordo com pesquisas desenvolvidas por diversas entidades, entre elas a Comissão Interamericana de Direitos Humanos e a Red LacTrans. O país vizinho reconhece a diversidade por meio da Lei de Identidade de Gênero e caminha para propostas legislativas de inclusão no mercado de trabalho para essa população.

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Onde estão as pessoas trans? Como vivem as infâncias trans? E a velhice? Ainda que as poucas políticas públicas conquistadas comecem a apontar respostas, a visibilidade continua sendo o ponto decisivo na vida cotidiana. O Brasil de Fato conversou com ativistas, mulheres e homens trans na Argentina para trazer reflexões sobre as mudanças – algumas em processo, outras ainda distantes – do imaginário cultural sobre as identidades trans.

Por onde começar?

Integrante do coletivo Capicüa e do Movimento Evita, Alan Otto Prieto é ativista trans em Buenos Aires e está acostumado a debater e refletir sobre as distintas problemáticas geradas pela imposição de gênero. Quando perguntado sobre onde a militância deve colocar o foco da luta, ele responde: "Temos que ir por tudo". Mas destaca: o importante é tudo; mas há uma urgência em focar nas infâncias e na velhice.

"Militamos desde o momento em que expressamos algo distinto ao que a sociedade esperava e [isso ocorre] na nossa primeira instituição que transitamos, a família. É um desafio pensar como as infâncias cis e trans podem ter vivências mais felizes e livres. E qual é o lugar pensado para que tenhamos uma velhice – os que conseguirem chegar nela?", questiona.

A construção de um imaginário normativo distancia as vivências diversas de gênero do cotidiano, por meio da expulsão do ambiente familiar, do sistema educacional e do mercado de trabalho. 

"A violência sistemática do Estado nos levou a construir nossos corpos na clandestinidade. Tudo isso traz consequências reais", aponta Otto.

Ser trans em uma sociedade genitalista

Uma das consequências de ser trans em uma sociedade genitalista e biologicista, que define gêneros a partir de aspectos biológicos, é a estigmatização. Sol de Los Angeles, mulher trans e fotógrafa independente, destaca que o estigma de relacionar mulheres trans à prostituição é também resultado da exclusão sistemática.

"Ser mulher trans ou travesti nessa sociedade é ser alvo de certos estereótipos e de uma gama de problemáticas, com pouquíssimas soluções que, como políticas públicas, um governo pode chegar a promover", afirma.

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Ela aponta que faltam informações a respeito, inclusive no sistema educacional. "É fundamental entender os diversos gêneros e sexualidades que existem, e por isso a Educação Sexual Integral (ESI) é tão importante", destaca a fotógrafa.

Saúde

Militante do Movimento Evita na província de Misiones, ao norte da Argentina, Andy Sosa destaca que, além da lei de cota de trabalho trans, estão lutando pela lei de saúde integral.

"É muito importante para a contenção e tratamentos com testosterona para as pessoas que estão começando a transição", afirma. 

 

imagem01-04-2021-09-04-02 A cota de trabalho trans foi decretada na Argentina no ano passado; militância segue pela conquista de uma lei para a inclusão trabalhista. / Agência Presentes

Determinações

A transfobia nasce nos preceitos da sociedade patriarcal sobre o gênero das pessoas, designado ao nascer, supondo certas expectativas centradas na genitalidade: se um bebê nasce com vagina, deverá ser mulher, vestir-se de determinada maneira e desenvolver características associadas ao cuidado e à delicadeza; se nasce com pênis, será homem, deverá gostar de carros, futebol e aventuras e cumprir mandatos próprios da masculinidade.

Essa norma torna-se especialmente perigosa para os que rompem radicalmente essa estrutura, identificando-se com o gênero oposto do designado pela sociedade.

"É tão nocivo e absurdo que chegamos a tal ponto de acreditar que as cores têm gênero, que as roupas têm gênero – que até os cheiros têm gênero", ressalta Alan.

A diferença entre províncias é grande em termos de cumprimento de lei e preconceitos. Por ter morado em diversas províncias no país, Andy conta que nas capitais há uma maior aceitação. "Na cidade, está mais naturalizado, inclusive para fazer a mudança de registro do nome ou ter assistência médica. Em Misiones, vivo dando explicações, e não aceitam as denúncias por desconhecer o que é transfobia", relata.

Recorremos ao trabalho como um modo de reconhecimento e de identidade

Assim como Andi, Cinthia Laguna encontrou outros horizontes na cidade de Buenos Aires, onde se desenvolve como artista – ainda que isso não signifique fugir da estigmatização. Ela é muralista, exerce a prostituição e sonha em ser tatuadora. "Eu sou de Salta e tive que deixar minha família para estar aqui, sozinha, e começar a ter alguma visibilidade sobre minhas obras artísticas, além de conhecer a militância. Por que sempre tem que ser na capital?", questiona. 

Ela vê nas possibilidades de trabalho a oportunidade mais imediata de mudar não apenas o imaginário social, mas gerar uma reviravolta na vida das pessoas trans. Como reflexão na data da visibilidade, ela fala em um "abrir de olhos".

"Gostaria que as pessoas fossem empáticas, que se ponham no lugar umas das outras. Que, ao olhar para nós, se coloquem do nosso lado e pensem o que fariam se fossem elas, se elas fossem uma pessoa trans. Para além de ser homem, mulher ou da sexualidade que cada um tenha", conclui.

Con Vosz Trava

Para marcar o dia da visibilidade trans, o programa "Con Vosz Trava" será lançado no canal de YouTube Brandon TV. Dirigido por Valeria Licciardi, também mulher trans, o programa narra em seis episódios a história e a trajetória, em primeira pessoa, de mulheres trans, entre elas Cinthia Laguna e Sol de los Angeles.

"Não se trata de visibilizar vozes, senão ressignificá-las", pontua Valeria. "Principalmente porque a desigualdade entre as pessoas travestis e trans não está na sua invisibilização, mas em sua denotação. Há imagens que não existem de nós, e por isso tomei esse papel como diretora para mostrar essa outra maneira de existência."  

Edição: Camila Maciel

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