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Artigo | Despejo na pandemia mostra que Brasília tem desprezo aos pobres em seu DNA

As grandes cidades do mundo têm, costumeiramente, um mito fundador que conta a história de seu surgimento. Em Brasília, a capital da República, e também das desigualdades, esse mito fundador é expulsar os pobres do centro e regularizar as invasões dos ricos. Foi assim antes mesmo da inauguração.

Nossas periferias, em sua grande maioria, têm essa mesma história. É algo que permeia o nosso imaginário coletivo e nos acompanha desde quando nos entendemos por gente. Ceilândia, por exemplo, tem isso cravado no nome e também na trajetória: a Central de Erradicação de Invasões (C.E.I), que depois viria a ser a maior cidade do Distrito Federal.

Nesta semana, essa história, que acontece como tragédia e se repete como uma farsa do "cumprimento da lei", foi escancarada mais uma vez. Há poucos minutos do centro do poder, o milionário sentado na cadeira de governador, Ibaneis Rocha, moveu centenas de policias militares, agentes do DF Legal, escavadeiras e caminhões para desalojar famílias que sobreviviam, a duras penas, na ocupação próxima ao CCBB.

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As cenas são dramáticas e expõem a perversidade de quem governa sem se importar com que tem menos. No momento mais difícil da pandemia, tanto pela crise sanitária, como pela depressão econômica, a prioridade do Estado tem sido despejar famílias, em ações coordenadas, por todo o DF. Junto a isso, o déspota do Buriti também permitiu que quatro pessoas fossem presas, só por lutarem em defesa das famílias da ocupação.

Ninguém quer moradia precária ou incentivar o uso desordenado do solo. O que ocorre é que essas famílias não surgiram da noite para o dia, são meses, anos de ocupação, e reiteradamente aparece o argumento de não permitir e reprimir, pois fere o tombamento da cidade. Os mesmo que dizem isso, quase sempre, permitem o debate ou concordam com a criação de novos bairros para as classes média e alta do DF.

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Para eles, a classe trabalhadora com menor poder aquisitivo não pode morar no centro, e por isso querem, mais uma vez, tirar as casas, lonas e barracas, como já foi supracitado, sem oferecer nenhuma atenção social. Dessa vez, foi no CCBB, há alguns meses, no Setor Comercial Sul, onde, ao mesmo tempo, querem transformar e mudar a destinação para moradias, assim como no Setor de Indústrias Gráficas (SIG). Veja, abaixo, a escola que funcionava na ocupação no CCBB sendo derrubada pelas forças distritais de segurança.

De derrubada em derrubada, em São Sebastião, no Gama, no Paranoá, como também no Assentamento 26 Setembro, Ibaneis vai pavimentando sua biografia como governador dos ricos, os únicos beneficiados das suas ações. No 26 de Setembro, por exemplo, o tal governador, em campanha em 2018, prometeu obras e que construiria, com recursos do próprio bolso, as moradias derrubadas pela Agência de Fiscalização do Distrito Federal (Agefis), mas depois só trouxe tratores para derrubar as casas.

Mais uma falácia de sua lavra, seguindo a lógica higienista de governar. O mesmo, que diz não ao 26 de Setembro, quer construir um novo bairro de classe alta, próximo de onde ocorreram as derrubadas

A questão não é que não pode, é que não nos querem lá…

E nisso, nesse mês de abril chuvoso, mais famílias não terão onde dormir. É o mesmo mês do aniversário da capital, planejada, idealizada e sonhada. Enquanto o povo vive em um eterno pesadelo. Nenhuma comemoração. O que precisa ser feito é destruir esse projeto de segregação econômica, social e geográfica.

É tempo de lutar! * Max Maciel é pedagogo e ativista pelo direito à moradia

Edição: Vinícius Segalla

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