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Artigo | Por que ainda se orgulhar?

Neste 28 de junho de 2021, Dia Internacional do Orgulho LGBTI, o Brasil acumula quase 515 mil vidas perdidas por uma doença que já se tem vacina. Então, como é possível orgulhar-se frente a um projeto intencional de morte e ódio?

Essa pergunta tem desdobramento na vida das pessoas não-heterossexuais todos os dias desde 2016. A guerra judiciária promovida pela Operação Lava Jato desestabilizou a política e economia brasileira e nos levou ao governo com vínculo com as milícias, com redes de ódio e fakenews, que nega a ciência, exalta torturador, possui um braço armado e tem como objetivo mudar o regime político e estrangular de vez as margens democráticas.

Como construir a resistência da diversidade sexual e de gênero, da negritude e antifascista é reflexão permanente desde o golpe de estado.

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Nas mãos da família Bolsonaro, a covid-19 foi a principal aliada no seu projeto de extermínio. Já em 1999, em entrevista ao programa Carta Aberta, o então deputado Jair Bolsonaro falou que a ditadura matou pouco, por ele mataria mais uns 30 mil.

Entre nós da comunidade LGBTI, não é incomum a prática de solidariedade como forma de cuidar e garantir a vida de seus pares.

Por isso, não é depois que assumiu a presidência que exterminar vidas é método sugerido por ele para tratar o diverso, o contrário, aqueles que os seus avaliam não serem dignos de ter o direito à vida.

As paredes do palácio do Planalto devem ter ouvido em algum momento o clássico argumento nessa pandemia: “Bom que ajuda a diminuir o desemprego, vai matar uns pervertidos e reduz o custo da previdência social”, não seria atípico dos valores deles. Reduziu a necessidade deles apertarem os gatilhos, agora legalizados.

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Mas ainda não saciados, continuam a matar queimada, na bala, de fome e ainda retiram dignidades e direitos. As periferias e os bairros populares estão diariamente sendo atacados, violados e empobrecidos. Famílias que moram sob ocupações urbanas e rurais são despejadas de suas casas durante uma crise sanitária.

O trabalho informal e precário, exposto a vetores de transmissão como os transportes públicos, é quase a regra para esses setores mais explorados e dominados no Brasil: as mulheres, a negritude e LGBTI. Com o número de desemprego atual, a fome dorme junto à cama, ao lado das irmãs e irmãos. Sem segurança alguma da comida no prato de amanhã e da vacina no braço hoje.

Apesar disso, não saímos da resistência. É daí que vem o real motivo do orgulho. Nas ruas durante as últimas décadas, lá estavam hasteadas as bandeiras coloridas. Elas nos lembram que antes de nós, houve quem resistiu e também quem tombou.

:: Orgulho é defender a vida da população LGBTI+ ::

E fruto desse passado somos hoje parte significativa de quem ocupou as ruas no último período, nos partidos, nos sindicatos, nos movimentos, com estandartes, batucadas, barricadas exigindo democracia e outra forma de fazer política. Assim como aqueles/as que tiveram coragem e orgulho antes de nós, seguimos denunciando o autoritarismo crescente e os ataques à liberdade. Incorporando a energia de que eu sou, porque nós somos.

Entre nós da comunidade LGBTI, não é incomum a prática de solidariedade como forma de cuidar e garantir a vida de seus pares. Hoje a pandemia reforça essa necessidade de nos entendermos cada vez mais enquanto sujeitos coletivos, que nossas vidas não são isoladas.

E sabendo que "tudo que nós temos somos nós", demos exemplo de cuidado ao construir cursinhos pré-vestibular com educação popular para jovens do povo, como nós, acessarem o ensino superior; quando alimentamos quem tem fome com toneladas de alimentos arrecadados em campanhas e pela doação de produção da agricultura familiar.

Fizemos naquelas ligações em vídeo, mandamos mensagem dizendo que amamos pra alguém e quando estávamos presentes quando precisaram de nós. Sabemos bem que juntos/as sempre andamos melhor.

Não havendo dúvidas que se dependesse de quem nos odeia e menospreza estaríamos mortos/as, existir coletivamente é motivo de orgulho. É retomar a memória de quem veio antes de nós e trazer no peito o afeto de participar dessa história de resistência.

É não ter vergonha de ser quem somos. É pertencer e se identificar com aqueles/as que se negam a aceitar uma vida indigna, precarizada e descartável. De estarmos do lado certo da história e que juntos/as refundaremos da raiz um país colorido e soberano. Com esperança de ser povo, que cuida de seu povo.

Porque o Orgulho, assim como a coragem, é um sentimento coletivo!

Aos que se foram, nosso compromisso: Resistiremos!

*Arthur Nobrega é militante do Levante Popular da Juventude

**Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

Edição: Leandro Melito