Site Overlay

Avanço da covid: "Feriadão não vai resolver", alertam especialistas

A criação de um super feriado não será suficiente para manter as famílias isoladas e conter a propagação descontrolada do coronavírus nas cidades brasileiras. Especialistas alertam que a medida mais adequada no momento é um pacto nacional pelo distanciamento social por pelo menos 15 dias.

Anunciada e estudada em cidades de todo o Brasil, a antecipação dos feriados do ano seria uma estratégia para tirar as pessoas da ruas e diminuir a pressão sobre o sistema de saúde, que passa por colapso em quase todo o país.

Na cidade de São Paulo, onde a medida foi anunciada pela prefeitura e começa a valer nesta sexta-feira (26), o tema já causa temor. Cidades turísticas do estado temem deslocamento excessivo de moradores da capital para o litoral e o interior.

::Organização Pan-Americana da Saúde considera o Brasil um perigo para a região::

O governo do estado acusou a prefeitura de tomar a decisão sem diálogo com os outros municípios. A adesão de cidades do ABC à medida preocupa ainda mais. Em resposta, já há previsão de barreiras nas estradas e fiscalização redobrada nas ruas. 

No entanto, frente a números cada dia mais alarmantes, colapso no sistema de saúde e superlotação de enfermarias e UTIs, a medida pode não ser suficiente. Além disso, a possibilidade de que o feriadão aumente os deslocamentos entre cidades preocupa.

No ano passado, a capital paulista definiu ação semelhante em maio, quando uniu dois feriados municipais. Mas a taxa de isolamento aumentou apenas três pontos percentuais na ocasião.

No Rio de Janeiro, o governo do estadual também avalia a criação de um super feriado para reduzir a circulação. A medida está em estudo ainda pela prefeitura de Salvador, capital Baiana e já foi anunciada pela gestão de Campo Grande, no Mato Grosso do Sul.

::São Paulo e Rio de Janeiro antecipam feriados para frear avanço da covid-19::

Um feriado estadual será antecipado no Piauí, nesta sexta-feira, dia 26. Outros municípios de diversas regiões brasileiras também já vêm anunciando estratégia semelhantes nos últimos dias. 

Em transmissão ao vivo pelas redes do Brasil de Fato, o médico infectologista, Ronaldo Hallal, membro do Comitê Covid da Sociedade Riograndense de Infectologia, afirma que é preciso mais tempo para que as restrições tragam resultado. 

"Essa doença tem um período de transmissibilidade que pode chegar a 14 dias. Eu me ausentar durante um fim de semana da minha cidade não impede de eu transmitir para as pessoas que vivem na minha cidade. Não é esse o foco", afirma ele.

Ainda de acordo com Hallal, um lockdown de poucos dias não traz resultados, "Não existem experiência publicadas na literatura científica de lockdown com três dias ou quatro dias que tenham tido algum impacto no ritmo de transmissões".

O médico ressalta ainda que é preciso superar a "confusão entre individualidade é individualismo" e privilegiar as ações que beneficiem a coletividade, "Não são poucas vezes que a gente escuta a defesa do direito de ir e vir em oposição ao isolamento. Sem lembrar que em uma situação de pandemia, a prioridade é a saúde pública."

Isolamento não vai derreter a economia

O economista da USP João Emboava Vaz, coordenador geral do Coletivo Arroz Feijão e Economia, também participou do debate virtual. Ele ressaltou a importância de garantias de auxílio emergencial em valores justos, para que todas as famílias tenham condições de se isolar.

Emboava ressalta que o benefício concedido no ano passado causou impactos positivos na economia com o atendimento de quase 70 milhões de pessoas e que as medidas de contenção são importantes para diminuir as mortes, "Não existe economia sem gente".

De acordo com Emboava, não há impossibilidade econômica de um lockdown e até mesmo o setor financeiro já tenta se afastar desse discurso, "Essa dicotomia entre saúde e economia serve só aos negacionistas. Recentemente, até o setor financeiro se colocou em favor de medidas mais cautelosas."

Eele afirma que o desastre nacional prejudica fortemente a economia, "Somos um país que voltou à miséria, chegou agora esse ano a ser a 12ª economia do mundo, depois de ter sido a 6ª, em um cenário de muita fome e desemprego. Nesse sentido, o auxílio emergencial é fundamental".

João Emboava considera os novos valores do auxílio, propostos pelo governo, um desrespeito à população, "Nessa agenda do governo Bolsonaro de corte de gastos a gente volta à fome, em mais um cenário de catástrofe".

Assista a transmissão:

 

 

 

 

 

Edição: Vinícius Segalla

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *