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Com vacina gratuita e sem restrição, Moscou atrai estrangeiros e russos que moram na Europa

Na Rússia a vacinação contra o coronavírus não está mais restrita apenas ao grupo prioritário

O ritmo lento da vacinação contra a Covid-19 nos países da União Europeia (UE) está fazendo com que moradores do bloco comecem a avaliar a possibilidade de viajar até a vizinha Rússia para receber o imunizante.

Diferentemente da Europa, na Rússia a vacinação contra o coronavírus não está mais restrita apenas ao grupo prioritário, e qualquer pessoa pode receber uma dose –incluindo estrangeiros. O interessado precisa apenas apresentar um documento de identificação, como o passaporte.

Apesar dessa abertura para pessoas de fora, essa espécie de turismo da vacina até o momento tem atraído principalmente russos que moram no resto da Europa, que têm retornado a seu país natal para receber o imunizante.

Atualmente, as fronteiras russas estão fechadas, com exceção de pessoas vindas de uma pequena lista de países que inclui Cuba, Egito, Belarus, Finlândia, Índia e Japão. Os viajantes, entretanto, precisam ser cidadãos ou residentes destes países e devem apresentar um teste negativo de Covid.

É esse o caso do pesquisador Fedor Levkovich-Maslyuk, 31, que mora em Paris, mas foi passar as festas de fim de ano em Moscou e aproveitou para tomar a primeira dose da vacina Sputnik V em janeiro.

“É essencialmente a única maneira de frear a epidemia e proteger a mim e às pessoas ao meu redor, e eu tenho uma possibilidade bastante única [em comparação com a UE] de ser vacinado”, diz ele.

Na Rússia, onde a vacinação em massa começou em dezembro de 2020, a lista de categorias com prioridade era pequena e incluía profissionais de saúde e professores. Assim, desde 18 de janeiro Moscou passou a disponibilizar a vacina de forma gratuita para todos que procurarem os postos, cidadãos ou estrangeiros.

“Na França, eu provavelmente teria que esperar até o outono para receber a vacina, então agarrei a chance de pegar a Sputnik na Rússia. Espero que com a vacina eu possa voltar a praticar esportes, bem como um pouco da vida social, e também me preocupar menos em infectar outras pessoas. Eu também me sentirei muito melhor quando souber que meus pais tomaram a segunda dose”, conclui Levkovich-Maslyuk.

A belarussa Anastasia Ivanova, 25, que mora em Dublin (na Irlanda), ficou sabendo da possibilidade de se vacinar de forma gratuita na Rússia ao ler um artigo de uma jornalista norueguesa que tinha conseguido receber o imunizante.

Acompanhada do marido, que é russo, a administradora viajou até Moscou e encontrou o shopping onde a jornalista tinha sido vacinado. Lá, ela recebeu a primeira dose, ainda em janeiro.

“Foi tudo muito rápido, eu cheguei ao shopping onde havia o centro de vacinação, fui atendida por um médico, que me perguntou sobre alergias e se eu tinha sintomas e em 15 minutos eu já tinha sido vacinada. Eu sou jovem, eu tenho saúde, mas eu prefiro não pegar a Covid”, diz ela, que teve um pouco de febre nas primeiras 24 horas após a vacina –sintoma relatado pela maioria dos entrevistados– e aguarda a segunda dose para poder voltar à Irlanda.

Apesar da facilidade para receber a vacina em Moscou, não está clara a velocidade em que avança a campanha de imunização na Rússia. As últimas informações disponíveis dão conta que o país tinha vacinado 0,7 de cada 100 pessoas, de acordo com o site Our World in Data, ligado à Universidade de Oxford.

Os dados russos, porém, não são atualizados desde janeiro, então é impossível saber o estágio atual. Para comparação, a União Europeia tinha até esta segunda (8) imunizado 3,85 de cada 100 habitantes, enquanto no Brasil essa taxa era de 1,7 por 100.

Mesmo assim, o físico russo Dmitri Bykov, 33, considera que a vacinação na Rússia é mais ágil do que na UE. Morador de Munique, na Alemanha, ele viajou a Moscou e recebeu sua primeira dose no dia 4 de fevereiro.

Para o físico, na Alemanha ele não conseguiria se vacinar em breve. “No Ocidente, existem tantos problemas legais, tanta burocracia, que tudo atrasa. Aqui na Rússia, talvez pelo fato de o nosso sistema legal ser ‘imperfeito’, isso ajuda quando precisamos de algo com rapidez. Eu conheço bem a burocracia alemã e lá as coisas demoram muito. Mesmo as decisões para questões mais simples levam meses ou anos”, afirma ele.

Em termos de comparação, Bykov diz que em Moscou tudo é feito de maneira simples e quase informal. “No Ocidente, as pessoas prestam muita atenção nas aparências. Como na Alemanha, onde construíram centros caros e não há vacinas.”

Bykov brinca ainda que, caso a situação se mantenha como está, em breve a Rússia vai poder desenvolver um “Turismo Sputnik”, com cidadãos de outros países viajando para se vacinar lá.

O governo russo até o momento tem evitado incentivar esse tipo de procedimento e disse que não tem a intenção de usar a vacina para incentivar o turismo.

É uma situação diferente da que ocorre com os Emirados Árabes Unidos, que trata a imunização como uma oportunidade de negócio, de acordo com uma reportagem recente do jornal britânico The Guardian.

Segundo a publicação, um clube da elite de Londres (o Knightsbridge Circle) tem oferecido a seus clientes a possibilidade de viajar até os Emirados Árabes para receber a vacina produzida pela empresa chinesa Sinopharm.

De acordo com um porta-voz do clube, o objetivo da medida é incentivar o turismo nos Emirados Árabes. O governo local não confirmou oficialmente a iniciativa. O país aparece em segundo lugar no ranking proporcional dos que mais vacinaram no planeta –são 44,63 imunizados por 100 habitantes, atrás apenas de Israel.

Quem também tem planos de usar a vacinação contra a Covid-19 para atrair turistas é Cuba.

Ainda sem uma vacina aprovada e com uma alta nas contaminações por Covid nesta última semana, Havana anunciou que, quando a sua vacina Soberana 2 –ainda em fase de testes– for aprovada, ela será produzida em grande quantidade.

Segundo o governo cubano, haverá vacina suficiente para toda a população da ilha (cerca de 11 milhões de pessoas) e para enviar a países aliados, como Venezuela e Irã. Além disso, o plano é oferecer o imunizante como parte de um pacote turístico para quem decidir visitar o país.

Enquanto em Cuba isso pode ser um atrativo, já que a ilha vive basicamente do turismo, a algumas milhas de lá, na Flórida, o chamado “turismo vacinal” vem sendo combatido.

Depois de algumas celebridades que vivem em países latino-americanos mostrarem fotos suas sendo vacinadas nesse estado americano, o que causou reclamações entre os residentes ainda não vacinados, o governo da Flórida passou a exigir comprovante de residência para a aplicação das doses.

Radicada em Paris, a escritora brasileira Marcia Camargos, 66, disse que não teria dúvidas de ir a Cuba se vacinar. “É desesperador ver a lentidão da vacina aqui na França, não dá para acreditar no calendário oficial. Já fui três vezes a Cuba e iria de novo. Iria também à Rússia, apesar de Putin e do seu governo opressor e homofóbico. Tudo pela saúde.”

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