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Depois de explosão de casos, curva da Covid-19 recua na Argentina, e governo altera restrições

A fase de isolamento social, iniciada em 20 de março, vai ser substituída por uma de distanciamento social –que retoma atividades econômicas e sociais, mas mantém o monitoramento da situação, disse o Ministério da Saúde

O governo argentino respira momentaneamente aliviado. Com os números de novos casos de coronavírus caindo desde o dia 23 de outubro, o presidente Alberto Fernández anunciou nesta sexta-feira (6) o relaxamento das restrições para tentar combater a pandemia.

A fase de isolamento social, iniciada em 20 de março, vai ser substituída por uma de distanciamento social –que retoma atividades econômicas e sociais, mas mantém o monitoramento da situação, disse o Ministério da Saúde.


A boa notícia chegou depois de semanas, entre o fim de setembro e o começo de outubro, em que os casos se espalharam por todo o país (antes mais concentrados na região metropolitana da capital, Buenos Aires) e houve um aumento repentino de novas infecções e mortes diárias.

“A melhor explicação para esse aumento repentino é a de que as aberturas do comércio e a flexibilização da quarentena a partir de julho/agosto provocaram isso, mas ainda há contextos das províncias que é preciso olhar com atenção para entender o que ocorreu”, diz à reportagem o infectologista Javier Farina, membro do conselho de assessores da Presidência para temas relacionados ao coronavírus.


A taxa de letalidade continua alta, com 731 mortes a cada 1 milhão, mas o número de contágios vem caindo. A cifra de infecções diárias, que chegou a mais de 18 mil em 21 de outubro, agora está na casa dos 11 mil no começo de novembro.


“Não compartilho a ideia de que a quarentena não funcionou. Nas primeiras semanas, funcionou e muito. A média de utilização das UTIs hoje é de 61%, e isso é parte do esforço de melhorar o aparato hospitalar. Depois aprendemos que não é possível fazer uma quarentena eterna”, afirma Farina.

Para o médico, o que ocorreu na Argentina no começo de outubro pode ser considerado o pico da doença, mas é preciso estar preparado para um repique, “por volta de março ou abril”. E aí, se for o caso, recorrer à quarentena novamente. “Enquanto não houver vacina eficiente, creio que a quarentena continuará sendo um instrumento útil”.

De todo modo, a leitura dos números não pode ser o único indicador da gravidade da pandemia no país, que continua testando muito pouco –7% da população até aqui, contra 39% na Espanha e 51% no Reino Unido, por exemplo.


A Argentina fechou suas fronteiras aéreas em 20 de março, mesmo dia em que adotou uma dura quarentena nacional, em que apenas trabalhadores essenciais podiam sair de casa. No começo, funcionou, e o país foi citado entre os exemplos da região.


A partir de maio, no entanto, já havia sinais de irritação entre empresários e trabalhadores informais, insatisfeitos com o auxílio governamental.

O comportamento das pessoas, especialmente nas grandes cidades, também começou a demonstrar um desgaste, e a quarentena passou a ser desrespeitada, com muitas aglomerações clandestinas.


Esse incômodo se agravou, provocando manifestações. Os protestos começaram questionando a quarentena, mas acabaram abarcando outras insatisfações, como os problemas econômicos ou a decisão de realizar uma reforma do sistema judiciário.

As manifestações, que têm se repetido nos fins de semana, passaram a mirar diretamente o governo argentino.


Ao mesmo tempo, aumentou, principalmente entre os jovens, o desrespeito às medidas de distanciamento social e uso de máscaras (ainda que obrigatório). Festas clandestinas se tornaram comuns.


Houve também desrespeito à determinação de não promover reuniões familiares –inclusive, em um casamento de judeus ortodoxos, o rabino e os noivos acabaram presos por descumprirem a lei.


Aos poucos, o governo foi flexibilizando atividades industriais, comerciais, horários de saídas recreativas e passeios com crianças. Colocou-se especial ênfase e controle, no começo, na região metropolitana de Buenos Aires, que hoje ainda tem o transporte público permitido apenas para trabalhadores essenciais e está sem previsão de retorno às aulas.

Entre abril e julho, mais de 97% dos casos ocorreram na Área Metropolitana de Buenos Aires, região que engloba a capital federal e seu entorno.


No chamado “conurbano”, que inclui a periferia da capital federal e os distritos pobres da província que o rodeiam, vivem mais de 16 milhões de pessoas e há mais de 1.800 favelas ou bairros pobres, com pouco acesso à água potável e sem possibilidades de respeitar o distanciamento social.


O agravamento da pandemia na província causou fricções políticas. Nos primeiros meses, o chefe de governo da cidade, Horacio Rodríguez Larreta, do partido do ex-presidente Mauricio Macri e pré-candidato à Presidência, quis impedir que habitantes da província fossem à cidade, para tentar deter a disseminação do vírus.

Mas grande parte dos trabalhadores de comércios da cidade vivem na província. No caso das trabalhadoras domésticas, mais de 80% delas.


Calcula-se que a pandemia tenha causado a perda de 280 mil empregos na Argentina. Como o governo Alberto Fernández proibiu demissões, empresários que não aguentaram os gastos na quarentena acabaram pedindo falência.


A federalização da pandemia começou em agosto, quando Buenos Aires passou a mostrar uma concentração um pouco mais baixa, de 82% dos casos, e o total das províncias, 18%. Em outubro, a região metropolitana tinha 34%, e o resto das províncias, 66%.

Com regras de quarentena mais flexíveis por terem tido poucos casos até então, províncias muito populosas (Córdoba e Mendoza) ou com sistema de saúde mais fraco (Jujuy e Chaco) viram os números de contágios e mortes aumentarem rapidamente. Novas restrições foram tomadas, mas algumas tarde demais.


Hoje, na Argentina, existem 24 tipos de barreiras entre uma província e outra e em relação à capital federal. Para entrar e sair de cada uma delas, é preciso uma permissão diferente, concedida pelo governo do local.


Algumas pedem apenas um teste recente de coronavírus, outras exigem quarentena logo que se atravessa a fronteira.

Até esta quinta-feira (5), o país tinha 1.205.928 contágios e 32.520 mortos. Nos últimos sete dias, a média de casos diários está em torno dos 10 mil.


“Não podemos baixar a guarda”, afirmou o ministro Ginés González García.


Em Buenos Aires, onde há diminuição dos casos, já estão autorizados o comércio de rua (com poucos clientes) e os shoppings (com 25% da capacidade). Também os restaurantes e bares (com 25% dentro), mais terraços e varandas.

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