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Morre de covid Bona Garcia, o guerrilheiro que virou presidente de tribunal militar 

Ex-guerrilheiro da Vanguarda Armada Revolucionária (VPR), o advogado João Carlos Bona Garcia morreu na última sexta-feira (12) aos 74 anos, vítima da covid-19, em Porto Alegre (RS). Bona, como era conhecido, teve uma trajetória singular: foi o único ex-militante da luta armada a tornar-se, na democracia, presidente de um tribunal militar. Sua história cheia de peripécias, no Brasil e no exílio, foi contada na biografia Verás que um filho teu não foge à luta e no filme Em teu nome, de Paulo Nascimento, de 2010, rodado em locações do Brasil, Chile, França e Marrocos.        Gaúcho de Passo Fundo, Bona começou sua militância na política estudantil, passando ao Partido Operário Comunista (POC) e logo à VPR, do capitão Carlos Lamarca. Realizou ações armadas e expropriações. Preso várias vezes, sofreu com a tortura.  

 O torturador ouvia música clássica

Em 2014, em entrevista para Núbia Silveira e Lorena Paim, do jornal Sul21, relatou suas agruras nas mãos do major do exército Átila Rohrsetzer que “batia ouvindo música clássica, falando da mulher e dos filhos”, sempre ao lado de um médico que examinava a vítima e mandava continuar batendo.

“O Átila me deu tanto choque elétrico que fiquei queimado nas orelhas, nas mãos. Alguns inspetores do Dops quando viram aquilo saíram chorando”, lembrou.

Bona saiu da prisão trocado, junto com mais 69 presos políticos, pelo embaixador Giovanni Enrico Bucher, da Suiça. Sequestrado pela VPR em dezembro de 1970, Bucher foi libertado em janeiro do ano seguinte e os 70 presos políticos seguiram para o Chile, à época governado pelo socialista Salvador Allende. Dois anos depois, Allende foi golpeado pelos militares e Bona refugiou-se na embaixada da Argentina. 

Das algemas ao poder

Do país vizinho, rumou à Argélia com o apoio do ex-governador de Pernambuco, Miguel Arraes, também exilado. Trocaria Argel pela França. Quando veio a anistia, retornou ao Rio Grande do Sul, passando a militar no PMDB. Trabalhou nos governos de Pedro Simon (1987/1990) e Antonio Britto (1995/1998). 

Foi diretor do Banrisul, chefe da Casa Civil e, findo o mandato Britto, membro do Tribunal de Justiça Militar/RS, do qual mais tarde seria presidente, no que identificou “certa ironia”.  Quando estava preso, fora conduzido algemado para uma audiência justamente nas dependências da Justiça Militar…

Bolsonaro, não

Permaneceu vinculado ao PMDB, hoje MDB, mas repeliu o comportamento do partido em 2018. No segundo turno das eleições presidenciais, a legenda que lutara contra a ditadura decidiu apoiar Jair Bolsonaro (PSL), um defensor da ditadura, contra Fernando Haddad (PT). Tanto que, o então governador José Ivo Sartori, que disputava a recondução ao cargo, apresentou-se como “Sartonaro”. Entre as figuras mais conhecidas do MDB, somente Bona e o cientista político João Carlos Brum Torres tornaram pública a rejeição ao candidato da ultra-direita. 

Na época, defendendo sua posição, Bona observou que “as pessoas se agarram ao salvador da pátria, a um discurso extremo de direita”. E profetizou: “vai dar com os burros n’água lá na frente”.   Na entrevista de 2014, indagado se tudo valera a pena, respondeu: “Sinto orgulho de ter feito algo, de não ter sido omisso, alienado. A vida não passou em branco”.

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Fonte: BdF Rio Grande do Sul

Edição: Katia Marko

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