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"Não interessa se são traficantes: é pra prender, não matar", diz ex-coronel da PM

“Qualquer operação que resulta em 27 mortes é uma operação com falhas desastrosas”. É assim que o Coronel da reserva da Polícia Militar de Sergipe, Luís Fernando Silveira de Almeida, secretário de defesa social de Aracaju, avalia a operação que aconteceu na favela do Jacarezinho e o modus operandi da polícia.

Em entrevista, ele disse que qualquer pessoa, mesmo aquelas que têm problemas na Justiça, merecem um julgamento justo. Para ele, qualquer ser humano sensato precisa defender os direitos humanos.

Se eu quero respeito a mim, eu preciso respeitar o próximo. São princípios que se perderam, porque as pessoas perderam a noção do que deve ser preservado em termos de humanidade”, afirmou.

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Veja abaixo a entrevista completa:

Vanessa Nakassato: Como o senhor avalia a operação na favela do Jacarezinho?

Coronel Luís Fernando: Qualquer operação que resulta em 27 mortes é uma operação com falhas desastrosas, na minha opinião. Não interessa se são pessoas procuradas pela Justiça, se têm mandados de prisão, se são assassinas, traficantes… são seres humanos e têm que ter o tratamento legal, justo. Se devem, têm o direito a um julgamento justo e, se condenados, a cumprirem suas penas. Mas a gente nunca pode defender algo que tem um volume tão grande que se assemelha a um combate de guerra.

VN: Coronel, o senhor é contra a violência e já usou o diálogo, muitas vezes, para resolver conflitos. O que te levou a defender os direitos humanos?

CLF: Eu acho que é uma coisa que, para qualquer ser humano sensato, não tem outro caminho. As pessoas personalizam muito as polícias de um modo geral, como se fosse um personagem de quadrinhos que aparece em determinado momento. Mas isso é uma coisa que mora dentro da gente, são coisas que são inalienáveis a nós, seres humanos.

Se eu quero respeito a mim, eu preciso respeitar o próximo. São princípios que se perderam, porque as pessoas perderam a noção do que deve ser preservado em termos de humanidade. Meio que um rompimento do pacto civilizatório é o que a gente tem visto, barbaridades em cima de barbaridades. Isso, para mim, é inaceitável.

VN: Ser filho de um salva-vidas e de uma enfermeira te influenciou de alguma forma a querer lutar pela vida?

CLF: Principalmente minha mãe. Minha mãe foi uma pessoa maravilhosa, extremamente dedicada à profissão que abraçou. Lutou e, entre os irmãos, foi a única que conseguiu fazer uma faculdade. Saiu de Juiz de Fora e sempre foi muito dedicada, sempre teve muita dificuldade de saúde e sempre nos deu o melhor que pôde em termos de educação. Então, minha mãe é um espelho que, infelizmente ou felizmente, não está mais com a gente. Ela partiu ano passado, mas acho que foi preservada de ver muita tristeza. O que estamos vivendo especialmente no Brasil é aterrorizante e extremamente chocante.

VN: Como o senhor enxerga a segurança pública no País hoje?

CLF: A segurança pública tem que ser totalmente remodelada em termos de proteção das pessoas, porque a proteção é o primeiro caminho da segurança pública. A repressão tem que ter a seletividade daquele que merece a repressão nos marcos da lei e não uma repressão generalizada que tem dizimado irmãos negros, pobres, periféricos, jovens… as estatísticas estão aí, não adianta querer mascarar. Fica dando cara de política de extermínio.

Então, a abordagem em bairro chique é de um jeito, na periferia é de outro… a gente tem que mudar toda a nossa forma de enxergar o que está acontecendo nesse País. É triste. É triste a imagem que nosso País tem lá fora. Eu sou casado com uma italiana e tem chegado cada notícia lá que meu sogro me liga preocupadíssimo. Essa notícia mesmo do Jacarezinho foi para a Europa, rodou o mundo, porque não é uma coisa normal. É triste a gente ver que a gente tinha tudo para viver em um país melhor…

VN: O que falta para o Brasil ter uma segurança pública que proteja a sociedade e não destrua vidas?

CLF: Primeiro, vontade política verdadeira, com uma assertiva da nossa população na escolha de seus representantes para que realmente levem os direitos das maiorias que chamamos de minorias por serem excluídas, mas que são a grande parte da população que são essas pessoas pobres e que, infelizmente, estão ficando miseráveis novamente. Levar a voz dessas pessoas para as Câmaras Municipais, Assembleias Legislativas, o Congresso Nacional e todo o executivo.

Quando você faz isso, você começa por outro caminho. E não acontece porque não temos educação. Muito pouco se investiu em educação, apesar da quantidade de dinheiro empregada na educação… se você não transforma as pessoas, elas ficam apáticas e, muitas vezes, são enganadas por mentiras, por questões de fake news e que as pessoas passam a defender como se fosse a coisa mais séria sem se aprofundar, porque não tem base para isso. Eu escuto pessoas defendendo absurdos e não adianta discutir.

Hoje, ou você é A ou é B. “Isso aí é um louco, é um petista, é um bolsonarista”… e a gente entrou nessa dicotomia e as pessoas se recusam a conversar civilizadamente.

Edição: Vinícius Segalla

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