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“Para Leite, ser gay não é olhar para população LGBT, mas apenas ser gay”, afirma Atena Roveda

A professora e escritora Atena Beauvoir Roveda iniciou sua trajetória na política partidária ao perceber o desgosto existente com aquilo que chama de “desqualificação estrutural” de Jair Bolsonaro (sem patrtido) para ser presidente.

“Pensei em usar minha visibilidade de escritora com cinco livros publicados, educadora e influenciadora frente às questões LGBTs para fortalecer a luta política, e me filiei ao PT”. Aconteceu em 2019, mas a relação com a sigla só durou cinco meses. Depois, Roveda foi para o PDT e, na pandemia, juntou-se à ocupação da escola Rio Grande do Sul, que o governo Eduardo Leite (PSDB) acabaria fechando.

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A escola foi fundada por Leonel Brizola, em 1960. Leite é alvo de suas críticas: “Em 2019, tivemos cinco assassinatos de mulheres transexuais e travestis no Rio Grande do Sul e não consigo perceber maior sensibilidade do governo estadual frente à complexa realidade LGBT”. Natural de Porto Alegre, Atena é colaboradora da Rede Trans Brasil e da Red Latinoamericana y del Caribe de Personas Trans. Idealizou a Nemesis Editora para publicação de literatura invisível e transantropológica.

Aqui, fala de sua trajetória, da situação LGBT e do gesto de Eduardo Leite ao assumir sua orientação sexual. 

Brasil de Fato RS – Gostaria de conhecer um pouco da tua trajetória, quando assumistes a identidade e de que forma isso interferiu na tua vida.

Atena – Em meados de 2015, eu já estava na construção da minha identidade. E muito devo a minha relação com a educação, a arte e a literatura. As estruturas sociais da cultura me propiciaram assumir uma busca da dignidade social enquanto parte da minha base profissional também se formava.

Sou professora, antes de qualquer coisa, porque não existe outro caminho senão o de aprender e ensinar a respeitar cada pessoa ao meu redor. Sou escritora, porque acredito que quem escreve para ser lida, de alguma forma, influencia na mudança da forma com que as pessoas lêem o mundo. Escolhi meu nome por conta disso. Atena é a deusa da diplomacia, da sabedoria e da estratégia que termina em paz.

“Com o governo Bolsonaro estão esquartejando a história do nosso país”

BdFRS – Tens uma militância pelo trabalhismo, dentro do PDT. Como é esse debate dentro do partido?

Atena – Iniciei, de fato, quando percebi que já existia desgosto, a desqualificação estrutural do Bolsonaro para ser presidente. Quando de uma viagem ao Rio de Janeiro para um evento de HIV/AIDS, fui convidada a conhecer o Movimento da Diversidade do PDT. Fui pesquisar. Lembro que embarquei no avião retornando a Porto Alegre assistindo um documentário da vida de Leonel Brizola.

Ao desembarcar, pisei esse solo sabedora de que era brizolista. De Brizola, conheci Alberto Pasqualini. De Pasqualini, o trabalhismo. E do trabalhismo, conheci uma história do nosso estado que nunca ouvira. 

Se Bolsonaro me desafiou a adentrar a política brasileira, Brizola me fez acreditar que é possível uma política brasileira. Dentro do PDT, eu foco na formação política que deve ser vista como um processo educacional de relacionar a existência do militante na história da existência da América Latina e do Brasil. Através de cartilhas, de livros, de material pedagógico para desenvolver debates e encontros.

A história do PDT e do trabalhismo se misturam com a história do Brasil. Já estive na executiva nacional e estadual do PDT Diversidade e hoje estou focada no movimento gaúcho chamado Diversidade trabalhista. Nessa semana, fui indicada pelo movimento estadual do PDT Diversidade RS para a pré-candidatura da chapa na disputa pelo governo estadual como vice-governadora. 

BdFRS – Quais retrocessos percebe desde o início do governo Bolsonaro?

Atena – O que fere mais diretamente o povo brasileiro é o ataque aos direitos do trabalho desenvolvidos pelo governo de Vargas que aplicava uma agenda política baseada no trabalhismo desenvolvido pelo então senador gaúcho Alberto Pasqualini, principalmente a Consolidação dos Direitos do Trabalho, a CLT. Muitos dos avanços sociais na história brasileira estão vinculados aos conceitos desse trabalhismo que se gera nas terras gaúchas.

Outra grande perda são os desmantelamentos de estatais pisoteadas ali e aqui até que se façam as tais privatizações desses bens históricos como a Petrobras e os Correios. Desde Temer temos tido facadas naquilo que deu certo. Com o governo Bolsonaro, não são só facadas. Estão esquartejando a história do nosso país.

“Ser LGBTI não é condição de perfeição. Há racismo, capacitismo, gordofobia em nosso meio”

BdFRS- Como avaliar o fato de pessoas da comunidade LGBTQI+ terem votado e ainda apoiarem o presidente (ou outros governos conservadores pelo Brasil e mundo)? Qual o sentido de alguém desta comunidade votar em um candidato assumidamente homofóbico?

Atena – A comunidade LGBTI não é uma massa de consenso. Existem diversidades de pensamentos, sentimentos, opiniões e afins. Cada história de uma pessoa LGBTI é exclusivamente dela e somente ela pode se responsabilizar por ter apoiado e votado em um sujeito que explicitamente expõe suas discriminações por gênero, sexo, etnias e afins.

Acredito que nos faltam meios de consolidar uma sociedade apta a entender que ser LGBTI não é condição de perfeição. Há racismo, capacitismo, gordofobia em nosso meio e se nós, enquanto população LGBTI, através dos movimentos sociais, ativistas culturais, das participações nos partidos políticos, não tomarmos uma posição mais séria diante da realidade que nos envolve, a gente nunca vai conseguir deixar de ser o país que mais mata pessoas trans no mundo.

BdFRS- O que podemos dizer sobre a situação da comunidade LGBTQIA+ no estado?

Atena – Não existe uma unidade na comunidade LGBTI no nosso estado. As individualidades das lideranças afetam muito a forma com que vai se delineando a história dos movimentos sociais no Rio Grande do Sul. Temos imensos avanços legais e o  principal deles, ao meu ver, é a carteira de nome social, que em minha trajetória foi essencial para fortalecer minha posição de cidadã gaúcha. Mas falta um longo caminho.

Não temos dados da população LGBTI. Quantos homens gays? Quantas mulheres lésbicas? Quantas pessoas bissexuais? Quantas pessoas trans e travestis? Quantas pessoas intersexuais? Se eu não tenho dados, como saber quais políticas públicas eu preciso criar, aplicar, investir e acompanhar? O problema não é a questão LGBTI em si. O problema é que quem está nos cargos políticos do estado nessa questão. (As pessoas) estão desprovidas de maior qualificação para a questão das políticas públicas para a diversidade.

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BdFRS – O governador Eduardo Leite afirmou sua orientação sexual em rede nacional. A partir de então, manifestações tem pipocado nas redes sociais, seja parabenizando, seja em tom mais crítico. Como avaliar essa atitude? Quais significados tem?

Atena – Ninguém está tomado de autoridade para ditar regras sobre como ler a atitude do governador Leite. Nem quem parabeniza tem autoridade para afirmar que não é momento de crítica. E nem quem critica contundentemente tem autoridade para deslegitimar as parabenizações. A minha opinião se baseou na figura dele enquanto governador e o quanto ele, nessa posição de poder político institucionalizado, não tem uma agenda política promovendo políticas públicas para a população LGBT. 

“Não é uma ação isolada que vai atingir a realidade LGBT”

BdFRS – Qual a análise que se pode fazer das políticas do governador em relação à comunidade LGBTQI+ ?

Atena – É preciso deixar bem explícito que na história do Rio Grande do Sul, as políticas públicas para nossa população sempre estiveram sendo impulsionadas pelos movimentos sociais. O mérito de qualquer avanço nesse sentido, advém das articulações que tais movimentos realizaram durante anos na busca por ampliar acesso à saúde, possibilitar maior segurança para a comunidade e autenticar socialmente as identidades de gênero. 

Não encontrei uma agenda de políticas públicas para a população LGBT no governo de Eduardo Leite. Pesquisei no site do governo e nos documentos disponíveis. Não é uma ação de capacitar profissionalmente em determinadas áreas as pessoas trans, que vai significar políticas públicas. Não é uma ação isolada que vai atingir a realidade LGBT como um todo, estruturalmente falando.

30 pessoas trans participaram dos cursos profissionalizantes. Perfeito. Mas isso é quanto em 100% da população trans gaúcha? Não se sabe. Afirmar que é trabalho difícil para ser executado em quatro anos de mandato, (fazer) um mapeamento e um diagnóstico sério, talvez nos indique um não preparo daquelas e daqueles que devem assessorar o governador na questão.

Mas não foi o próprio Leite quem autenticou as escolhas dos seus secretários e (não são esses que) definem suas equipes? Se a gente não usar da crítica lúcida, factual e não piegas, tendemos a entender que basta ser gay para que o seu governo execute políticas públicas reais e sérias para nossa população o que, no caso do Leite, se apresenta totalmente oposto.

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BdFRS – Embora louvável, o gesto de Leite carrega uma carga de oportunismo na medida em que, em 2018, ocultou sua condição de gay para apoiar um homofóbico bastante popular. Hoje, como o homofóbico perdeu popularidade, Leite se afasta dele. Concorda ou não com esta interpretação?"

Atena – Leite se afasta de Bolsonaro por conta da sua investida para ser o futuro candidato tucano à presidência. Esta é a única interpretação que faço, porém, isto não interfere na liberdade individual do governador declarar-se gay. A maior contradição, que eu identifico na leitura de fato, é que, para Leite, ser gay não é ser um governador que olhe para a população LGBT, mas simplesmente ser gay. E quem aponta essa lógica não sou eu, mas a falta de políticas públicas no governo tucano atual para a população LGBTI.

Fonte: BdF Rio Grande do Sul

Edição: Ayrton Centeno