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Silvia Federici e Sônia Guajajara: o debate feminista precisa ser anticapitalista

"Feminismo não é o que a mídia tenta representar, nem o que as instituições tentam, há anos, cooptar para promover a entrada das mulheres na força de trabalho. O tipo de feminismo que tem despontado, especialmente no Sul Global, é um feminismo popular, coletivo", assim a filósofa italiana Silvia Federici iniciou o debate "Feminismo, comuns e ecossocialismo", organizado pela editora Boitempo na última quarta-feira (10). 

Além da italiana, a conversa teve a participação de Sônia Guajajara, primeira candidata indígena à vice-presidência do Brasil, que disputou as eleições de 2018 pelo PSOL.

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Durante quase duas horas, Silvia e Sônia discutiram temas como direitos dos povos indígenas, meio ambiente, trabalho doméstico, cuidado, educação dos filhos e papel do feminismo dentro do socialismo. A conversa integra a programação “Por um feminismo para os 99%”, ciclo de palestras que será realizado todas as quartas-feiras, até 31 de março, sempre às 14h.

Silvia Federici, uma das expoentes da campanha pela remuneração do trabalho doméstico, defendeu que o debate feminista precisa que ser anticapitalista e acrescentou que a luta das mulheres não se restringe ao ato político de ir para as ruas e confrontar o Estado, mas também a um trabalho de reestruturar a vida cotidiana. 

"Essa reestruturação é, realmente, uma pré-condição para a reprodução. Até agora, muito do nosso trabalho tem reproduzido o capitalismo, e o desafio é reproduzir a luta. O desafio é transferir cada vez mais energia, o nosso tempo, da reprodução do capitalismo para a reprodução da nossa luta".

Mulheres indígenas e meio ambiente

Guajajara trouxe para o debate as questões das mulheres indígenas e os enfrentamentos que foram necessários para desconstruir a ideia de que, culturalmente, as mulheres não tinham direito a ocupar determinados espaços.

Ela avalia que as lutas feministas já geraram resultados entre as indígenas. "Nós temos muitas mulheres nas universidade em todos os cursos possíveis. Temos mulheres ocupando lugares de cacica dentro das aldeias, em cargos de organizações indígenas regionais, nacionais… Isso não nos foi dado pelo Estado brasileiro. Nós chegamos nesse lugar rompendo barreiras com muita luta".

No debate, Sônia também criticou o entendimento capitalista de que desenvolvimento é necessariamente algo bom. "[nesses termos] Desenvolver é deixar pessoas para trás. É tirar as pessoas, o meio ambiente, é tirar tudo que é vida, e seguir somente pensando em atender o capital".

Sônia destacou ainda que a destruição do meio ambiente é pautada por uma ideia de desenvolvimento capitalista. "Trata-se de uma destruição que é funcional à promoção da industrialização, especialmente, na forma de trabalho digital. Atualmente, a mineração e a perfuração do petróleo estão destruindo completamente as terras comuns".

A filósofa italiana Silvia Federici defendeu o fim da exploração e da privatização das terras e finalizou o debate dizendo que a "força do capitalismo é a capacidade de nos isolar da comunidade" e que o "o capitalismo é um pandemia".

“Por um feminismo para os 99%”

O evento é uma promoção da TV dos Trabalhadores (TVT), Rádio Brasil Atual, Rede Brasil Atual, Revista Quatro Cinco Um, Le Monde Diplomatique, Brasil de Fato, Outras Palavras, Hysteria, Grifa Podcast e Preta e Nerd & Burning Hell, sendo viabilizado pela Lei Aldir Blanc.

A programação é baseada nas obras de autoras como Angela Davis, Audre Lorde, bell hooks, Michelle Alexander, Sueli Carneiro e Conceição Evaristo e pode ser assistido aqui.

Edição: Rebeca Cavalcante

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